09/01/2017

Bryan Ruiz

"Até ao final do jogo, vivemos com o coração nas mãos. O Bryan Ruiz teimava em concluir as jogadas em grande estilo. Ou acabava a passar a bola ao guarda-redes, ou tentava um chapéu ou um qualquer centro envolvendo um toque na bola completamente improvável."

Retirado daqui.

É a isto que me refiro quando falo de Bryan Ruiz.

Não me refiro à sua qualidade técnica, que é inegável.

Não me refiro à sua capacidade de segurar a bola, cuja utilidade é inquestionável.

Não me refiro à sua inteligência e visão de jogo, acima da média.

Nem me poderia referir ao papel que desempenha taticamente, onde é dos melhores que temos do meio-campo para a frente.

E nem sequer me refiro ao que os experts designam de "tomada de decisão". A tomada de decisão de Bryan Ruiz (reter ou passar? avançar ou recuar? rematar ou entregar?) é certa na grande maioria das ocasiões.

Refiro-me ao facto de Bryan Ruiz estar numa fase em que invariavelmente complica lances que são simples. Pensem num exemplo retirado do jogo de ontem: Ruiz faz a desmarcação perfeita, controla bem a bola, progride sozinho (porque não tem colegas a acompanhar o lance), ou seja, toma todas as decisões corretas, tudo impecável; quando se aproxima da baliza o defesa fecha dentro e só lhe dá ângulo para o seu pior pé, o direito. A partir daqui, não estando em causa "o que faz", entra a análise do "como faz": um jogador relativamente cego do pé direito, ao invés de optar pela solução mais simples (remate seco) tenta um toque em habilidade (chapéu), quando o GR ainda não foi ao chão e nem sequer está particularmente adiantado. E a bola foi parar ao mesmo local onde iria parar caso a solução simples corresse mal...

Repare-se que é um jogador muito útil à equipa. Ontem a sua entrada permitiu voltar a entrar num jogo que (pasme-se) o Feirense estava a controlar desde o intervalo. Foi fundamental. Mas depois tem estes momentos que, sinceramente, gostaria de atribuir à fase que a equipa atravessa, mas, em boa verdade, não o posso fazer.

BRuiz é um dos paradoxos deste Sporting: se não joga no meio, o coletivo fica mais frágil; se joga no meio, a sua falta de objetividade deixa-nos mais longe do golo. E se pensarmos que no ano passado a fase em que perdemos mais pontos foi com BRuiz atrás do PL (Teo estava a banhos), chegamos rapidamente à conclusão de que ele, a jogar, terá que o fazer numa das alas, ajudando a fechar dentro quando o Sporting não tiver a bola. Mas aí teria que sair Gelson ou Campbell.

Cabe a JJ trabalhar este aspeto. Ou a BRuiz entender que terá sido esse o motivo do seu percurso menos famoso em Inglaterra.

12/12/2016

Derby

Confesso que gosto de escrever estes posts sem ler primeiro os que já foram escritos nos (meus) blogs de referência.

Mas desta vez cometi o "erro" de ler primeiro o A Norte de Alvalade e o Cantinho do Morais. Não precisei de ler mais nada: está lá quase tudo o que penso, com algumas excepções (seja por discordância, seja por omissão).

Por isso mesmo, remeto para esses textos, limitando-me a acrescentar o seguinte:

1. Bryan Ruiz é um jogador a menos há muito tempo. Ainda não tinha tido coragem de o escrever aqui (creio) mas já o digo há muito tempo em trocas de impressões com outros sportinguistas. Não lhe negando as evidentes qualidades, reconheço que não sou apreciador do jogador e nem a vigorosa defesa dos experts o salva. É o estilo do jogador, e não o que ele produz (quando está inspirado), que não aprecio. Nem todos têm que ter a forma de jogar de um Slimani, mas o jogador que não consegue deixar de encarar todos os lances vendo como única solução o adorno ou o toque de primeira não será seguramente um modelo de "aproximação da equipa ao golo", ainda mais quando a intensidade colocada nos lances não está, em regra, à altura de um jogo como o de ontem (que me desculpem os experts). O BRuiz sabe muito do jogo, disso não duvido. Mas não consegue evitar (é mais forte do que ele) ligar o complicómetro quando às vezes o recomendado para a tal "aproximação ao golo" é, simplesmente, um simples passe para o lado, ou mesmo para trás. Continuo a dizer que pode ser um elemento importante na estrutura defensiva da equipa, jogando atrás do PL, mas em jogos com outros adversários. Ontem, a única coisa que justifica a sua permanência em campo, na comparação com Bruno César, é o cartão amarelo deste último. Parece-me insuficiente como critério.

2. Em ligeira discordância com o Leão de Alvalade, só há um lance de arbitragem em que (ainda assim com muito boa vontade) daria o benefício da dúvida a Jorge Sousa: o do Nélson Semedo. Essencialmente porque o lance é rápido e ele não conta que o colega falhe a intercepção; ele faz um movimento, ténue, em reacção à falha do colega e o braço toca na bola. Difícil configurar como intencional. Sucede que as leis do jogo se mantêm inalteradas, mas a interpretação das mesmas não. E as instruções para os árbitros, muito sucintamente e em legalês (com as minhas antecipadas desculpas), ordenam que os árbitros punam não apenas o dolo (em termos muito básicos, a intenção), mas também a negligência (em termos muito básicos, desleixo ou imprudência). Um dia farei um post desenvolvido sobre este tema mas, por ora, fiquem apenas com esta imagem: os defesas recolhem os braços nos cruzamentos, quando não o faziam há 15/20 anos, pelo simples motivo de que sabem que, hoje, ao saltar em oposição a um cruzamento com os braços estendidos, estão a ter um comportamento imprudente e passível de falta. Ora, o Nélson Semedo manteve o braço junto ao corpo. Não me parece suficiente para que o lance não seja punível, porque há um movimento que impede a progressão da bola, mas seria suficiente para dar o benefício da dúvida. Só não o dou de forma cabal porque vi o resto do jogo e, muito em particular, um lance escandaloso de falta sobre o Adrien, nas barbas do árbitro, com o jogo a acabar, que provavelmente não daria em nada (Bruno César não estava em campo, o livre seria à sua medida) mas tem que ser assinalado pelo simples motivo de que é falta.

3. Nada do que disse se aplica ao lance do Pizzi. Ou melhor, ao segundo toque, porque Pizzi tocou duas vezes com a mão na bola. O primeiro toque poderíamos desculpar por motivos semelhantes (proximidade de Lindelof quando toca a bola), mas o segundo toque é inquestionavelmente intencional.

4. Curioso como a psicologia se inverteu nos derbies: se nos primeiros parecia impensável que Rui Vitória conseguisse encontrar forma de derrotar JJ, agora parece que Rui Vitória encontrou uma fórmula com que JJ não se dá bem. O Benfica assume estes jogos em contra-ataque (quantos lances criou em jogo corrido?) porque sabe que JJ não vai hesitar em por a sua equipa a assumir o jogo. Rui Vitória sabe também que tem a melhor linha ofensiva em Portugal, que lhe permite jogar contra os "pequenos" e "médios" assumindo o jogo, e contra os grandes na expetativa. Curiosamente, as vezes em que não o fez, perdeu, justa ou injustamente. Assumiu o jogo com o Sporting, no ano passado, controlando os primeiros 20 minutos, e perdeu; assumiu o jogo com o Porto, também no ano passado, e até deu um banho de bola, mas perdeu. Quando jogou na expetativa, deu-se bem. A verdade é que tem jogadores para isso e o Sporting não tem. Jogar em contra ataque com Ruiz, Bruno César e Bas Dost seguramente não traria grandes resultados. Com Salvio, Rafa, Guedes e Jimenez a conversa é outra. Independentemente dos lances de arbitragem, o Benfica marcou-nos dois golos (o facto de o primeiro ser antecedido do lance do Pizzi não é chamado para esta análise). Foi eficaz porque os seus jogadores são bons. Salvio parecia perdido para o futebol, mas ainda mexe, e bem; Rafa é um grande jogador; Gonçalo Guedes não está ao nível dos demais, mas tem estado muito bem; e Jimenez pode não valer os 22M€ mas é um PL com muitas qualidades. E relembro que não estavam Jonas e Mitroglou.

5. Porque isto não pode passar em claro, queria só recordar aos sportinguistas que o Benfica tinha no banco aquela que seria a dupla de extremos que JJ queria este ano: Carrillo e Cervi. No banco. Isto para os que acham que o Sporting tem obrigação de ganhar porque isto ou por aquilo. Repito: o adversário de ontem tinha no banco aqueles que seriam os nossos titulares. Podemos até dizer que foi buscá-los para nos enfraquecer porque nem precisava assim tanto deles (modelo FCP anos 90 e 2000, a juntar aos Jorges Sousas). Mas o ponto é fundamentalmente este: os adversários ainda vão tendo melhores plantéis do que nós. O nosso 11 consegue andar ali taco-a-taco, mas a partir daí leiam o que dizem o Cantinho e o Leão de Alvalade. E nem vou comentar Alan Ruiz (continuámos a jogar com 10, quando devíamos estar desde o intervalo a jogar com 11). Não o digo em forma de crítica, e até o poderia fazer. Digo-o como constatação.

6. Enorme jogo de William Carvalho. Aquele de ontem é o William que os benfiquistas dizem que nunca viram. Acho que ontem só não viram se não quiseram.

07/11/2016

Tira-teimas?

Há uns anos era recorrente a conversa da "atitude". Quem não se lembra daquela miserável época de 97/98 em que garantimos o apuramento para a UEFA com uma vitória sofrida sobre o já despromovido Belenenses (golo de Vidigal)? Durante essa época, falou-se sobretudo de atitude. Com Octávio e com Carlos Manuel, que a referia constantemente. Até a Juve Leo fez uma tarja "Pela vossa atitude, o nosso silêncio" num jogo em casa com a Académica que até hoje estou para perceber como conseguimos ganhar (golo de Marco Almeida - merece um post, não me posso esquecer dele!).

Entretanto não só o jogo evoluiu como evoluiu (ainda mais?) a capacidade de o analisar. Podemos não gostar de Freitas Lobo (não sou fã), Pedro Henriques (gosto mais) e tantos outros, mas é evidente o contraste com um passado não muito distante em que os jogos eram comentados pelo António Fidalgo (grande campeão pelo Sporting mas um comentador que só dizia banalidades).

Obviamente que este fenómeno acabou também por chegar aos blogs. Há 10/15 anos, não me lembro (mas posso ser só eu) de existir um só blog em que se tentasse fazer uma leitura rigorosa do jogo (aquilo a que eu e os meus amigos chamamos "futebol-processos"). Analisavam-se plantéis, equipas, lances, mas sem qualquer profundidade. Um bom jogador era bom porque fazia o que lhe competia. Nas análises de há 10/15 anos, Jonas era melhor do que Slimani porque marcava mais golos e fazia mais assistências. O seu papel no resto do jogo não era considerado.

Desde então, o aparecimento de blogs como o Lateral Esquerdo, o Posse de Bola, o Entre Dez, o Domínio Táctico (e já não está activo aquele que, para mim, era o melhor de todos: o Bancada Nova, do PLF) mudou a forma como os frequentadores de blogs olham para o jogo. Eu brinco muitas vezes com estes bloggers, chamando-os de experts, mas tenho que reconhecer que fui (e sou) influenciado por eles. Porque o que escrevem faz sentido. Muitas vezes discordo, por motivos que já expliquei noutros posts e que não vale a pena repisar (basta seguir o tag se estiverem interessados nisso). Mas são opiniões que têm fundamentos que vão para além do "não corre", "é um fussão", "não sabe rematar", "não tem cabedal" e isso faz com que os leia atentamente. Acima de tudo, o cliché da "atitude" foi caindo porque, regra geral, todas as equipas entram com a mesma atitude para dentro do campo e o que as distingue são, essencialmente, duas coisas: a qualidade coletiva e a qualidade individual dos jogadores.

Como referi, obviamente não foram os blogs que iniciaram o movimento, limitaram-se a acompanhá-lo. Aquela geração de treinadores que salvava clubes da despromoção (um deles, Jaime Pacheco, fez bem mais do que isso - foi campeão!) graças à "atitude" que incutia nos jogadores, deu lugar a uma outra geração (fortemente influenciada pelo papel de José Mourinho no Porto) que se preocupa com o futebol-processos e sabe que o "bora lá crl" não deve chegar para ganhar muitos jogos (há muitos exemplos, para todos os gostos: Paulo Fonseca, Marco Silva, Jorge Simão, Miguel Leal, etc.).

Isto tudo para dizer o quê?

Em primeiro lugar: sem prejuízo de tudo o que disse acima, no último jogo e m Alvalade com o Tondela, senti pela primeira vez em muitos anos (e incluo a época de 12/13 neste lote, vejam bem!) que os jogadores do Sporting não encararam o jogo com a atitude certa. Aquele jogo era para ganhar, sim ou sim, desde o primeiro minuto. E o Sporting pareceu entrar em ritmo de passeio.

Em segundo lugar: ontem senti que a equipa entrou com a atitude certa, em cima do adversário, a disputar cada lance sabendo que aquela vitória não podia mesmo fugir. E a vitória caiu naturalmente para o nosso lado.

Mas será que esta sensação relativa à atitude dos jogadores faz algum sentido? Ou será que efetivamente a colocação de BRuiz nas costas de Bas Dost, como referi no post anterior, era o detalhe que estava a faltar?

Honestamente: não dá ainda para tirar as teimas. Este jogo foi obviamente melhor, o Sporting entrou mais agressivo e mais pressionante, mas um exercício de honestidade deve levar-me a dizer que marcar num lançamento lateral às três tabelas aos 10 minutos de jogo muda muita coisa. Com o Tondela, Gelson Martins rematou ao poste, logo no início do jogo, e nunca saberemos como seria o jogo se essa bola entrasse.

Mesmo sem tirar todas as teimas, tenho que dizer que, a ganhar 1-0, vi a "atitude defensiva" de BRuiz que já antecipava. Juntamente com Dost e com Adrien cobriam o corredor central por onde o Arouca nunca conseguiu sair a jogar. Mais atrás, Campbell (belo jogo mas sempre melhor à direita e no meio do que à esquerda) e Gelson, mais William como homem mais recuado para uma segunda linha de pressão. Pressão coletiva, seguramente treinada há já muito tempo, mas a que faltavam duas peças: Adrien, que joga com William há mais de 3 anos, e é treinado por JJ desde o ano passado (e antes foi treinado por Jardim, Marco Silva, bons treinadores...); e um segundo elemento que fizesse companhia a Bas Dost e que conheça e entenda o que JJ pede (teria que ser, como disse, BCésar ou BRuiz).

Não podemos ter certezas, mas diria que, pelo menos, foi claro que o jogo estava controlado e que o Arouca só de bola parada criaria perigo (e tanta bola parada houve ontem, para um lado e para o outro, graças ao festival do apito de um dos grandes baluartes do Xistrema). Obviamente que, depois de 3 empates de rajada, Alvalade só descansou com o 2-0, mas o Arouca nunca fez nada que nos incomodasse. É um passo positivo.

PS: Sou totalmente insuspeito na apreciação do Elias. É um jogador que sempre considerei sobrevalorizado pelas chamadas a uma seleção que atravessa de há 10 anos para cá um incompreensível fenómeno de vulgaridade que o atual selecionador está a tentar corrigir a pouco e pouco (basta lembrar quem por lá andou neste período para perceber que Tite está mesmo a mudar alguma coisa). Mas dizer que é sobrevalorizado não significa dizer que é mau. O Juan Mata e o Roberto Soldado são altamente sobrevalorizados; dizer isto significa que são maus? Não, significa apenas que mesmo sendo ótimos jogadores não lhes vejo qualidades para andar em clubes de topo (comparemos com Payet que anda pelo West Ham ou com Kevin Gameiro, tanto tempo suplente no Sevilla e que só agora chegou ao Atletico Madrid). O Elias é um bom jogador e é perfeitamente capaz de desempenhar o papel que lhe está destinado no atual Sporting: ser alternativa a Adrien. Na ausência de Adrien, foi uma das vítimas dos erros coletivos que foram sendo cometidos porque o seu estilo de jogo o põe nos holofotes dos adeptos que querem carrinhos e correrias. Mas não foi seguramente pelo Elias que o Sporting perdeu em Vila do Conde, porque o Elias nem saiu do banco. E essa foi a única derrota no campeonato neste período (e bem expressiva por sinal). Por isto, mas acima de tudo por ser profissional do Sporting, vai sempre contar com o meu vibrante aplauso por cada vez que se levantar um coro de assobios como aconteceu quando entrou em campo com o Arouca.

03/11/2016

Falemos de futebol - os problemas de que se fala

Depois de uma longa ausência, apetece-me voltar a escrever para falar de algo que parece interessar pouco nesta fase (ou pelo menos parece interessar bastante menos do que os 823 textos anti-Benfica que se publicam um pouco por todo o lado, desde logo em páginas ligadas ao Sporting): os problemas que parecem existir na nossa equipa de futebol.

Faço-o depois de um jogo que, a meu ver, foi bem conseguido do ponto de vista coletivo mas que revelou, de alguma forma, em virtude de algumas alterações, parte do que não tem estado bem nesta equipa (pelo impacto positivo dessas alterações nalguns jogadores, como Schelotto e Marvin). Mas o sistema de ontem não serve para resolver todos os problemas, simplesmente porque aquele sistema não ajuda a ganhar ao Arouca em casa. Mais: aquele sistema não impede o Arouca de ser perigoso em Alvalade. Porquê? Porque a meu ver não resolve o maior problema do Sporting nesta fase: o espaço concedido a qualquer adversário para construir jogo pela zona central. Esse espaço expõe a equipa, que fica desequilibrada e desposicionada, e obriga os jogadores do meio-campo não só a correr mais do que era suposto mas também a construir a partir de uma zona mais recuada (porque a equipa dificilmente recupera a bola em zonas altas do campo).

Mas começo por dizer o que tenho ouvido por aí para depois dar a minha opinião:
- "o grande problema está nas laterais, não nos reforçámos"
- "o grande problema foi a lesão de Adrien, Elias não está à altura"
- "o grande problema foram os reforços, não estão à altura dos jogadores que saíram".

Quanto aos laterais, queria recordar que são os mesmos que fizeram a série de vitórias do ano passado. Todos sabemos que têm algumas limitações, mas convenhamos que já as tinham antes e que estão bastante acima da média do campeonato português. O treinador é o mesmo (logo a forma de defender também), os centrais também são os mesmos, o sistema no meio-campo defensivo é idêntico. Eu não iria por aqui. Podemos questionar jogo a jogo se as escolhas são as mais adequadas e acima de tudo questionar se, não tendo Jefferson saído (como parecia ser pretendido por treinador e SAD), não será ainda assim melhor opção do que, por exemplo, Bruno César. Mas mais importante do que isso, a meu ver, é perceber se os laterais este ano estão mais expostos do que no ano passado. Eu acho que estão mas não tem a ver com os bonecos que colocamos a jogar: tem a ver com a forma como a equipa está a jogar. Ontem a equipa protegeu melhor os seus laterais e a verdade é que vimos Marvin fazer mais subidas num jogo do que no resto da temporada.

Quanto a Adrien vs Elias, o problema não é especificamente esse. O problema seria Adrien (ou William) vs qualquer outro jogador do mundo que (i) não conheça o parceiro de sector e (ii) não seja treinado por JJ há pelo menos um ano. Desde a primeira hora o digo aqui, este sistema de JJ é um sistema que, quando está a carburar, dá muitos pontos; quando não está a carburar, é um pesadelo para o meio-campo. No ano passado eu dizia que com Aquilani e Adrien ia ser complicado e teríamos que jogar com meio-campo a 3. Mesmo com Adrien e JMário a equipa não estava a ser segura (e acho que poucos colocarão em causa a qualidade de JMário). Neste sistema, a rotina entre os jogadores do meio-campo é fundamental. Basta pensar no tempo que levou até que jogadores como Matic e Enzo Pérez se afirmassem definitivamente no Benfica de JJ. Por isso mesmo, eu que nunca fui fã de Elias e que considero que o rapaz parece sempre jogar em "modo caipirinha", defendo que não é por Elias que a coisa corre pior mas pelo sistema de jogo, que não foi adaptado à inexistência de rotinas entre os jogadores.

Quanto aos substitutos dos jogadores que saíram: é evidente que nem Dost nem Castaignos são Slimani, mas convém perceber que não estamos a falar da saída de um fora-de-série e que tanto Dost como Castaignos oferecem à equipa algumas coisas que Slimani não oferecia; e a saída de JMário tem sido disfarçada por um início de época fantástico de Gelson Martins (nunca pensei!). Não custa reconhecer que os reforços ainda não encaixaram (alguns vinham de grandes paragens competitivas) e antecipo mesmo uma vida difícil para alguns deles: Campbell chegou porque nem JJ acreditou que Gelson tivesse esta afirmação tão evidente (não terá oportunidades tão cedo); Douglas chegou porque JJ achava que RSemedo não tomaria conta do lugar (mas tomou); Meli viria fazer papel de JMário (naquela posição em que não era extremo nem médio interior) e foi também prejudicado pela afirmação de Gelson. Mas os demais terão o seu lugar e a sua função: Beto veio para ser suplente; Petrovic é alternativa a William; Elias é alternativa a Adrien (mas o sistema não o favorece); Dost será o titular e Castaignos a alternativa; Markovic seria segundo PL e André a alternativa (ainda há Alan Ruiz, mas é um caso à parte de que falarei noutra altura). Não são jogadores sem qualidade ou sequer sem experiência, estamos a falar de jogadores internacionais por Portugal, Sérvia, Brasil e Holanda. São, sim, jogadores com longos períodos sem competir (como disse acima) e "vítimas" de uma dinâmica coletiva que está numa fase menos boa. E o que está a correr menos bem coletivamente está a atrasar aquilo que já seria difícil por si mesmo.

Não estando o problema nos laterais, em Elias ou na qualidade dos reforços, onde está o problema? Como disse, no sistema de jogo e, muito em particular, no espaço que é dado ao adversário. O meio-campo corre mais mas corre pior. Recupera a bola mais atrás e quando inicia a construção tem 9, 10, 11 adversários pela frente. Qualquer equipa constrói em Alvalade, até o Tondela o fez. Os primeiros 45 minutos com o Dortmund, em Alvalade, foram penosos. À imagem do que fez no ano passado quando ficou sem William, JJ não adaptou a equipa à ausência de Adrien. Elias e Markovic têm sido jogadores sujeitos a verdadeiros massacres ao ego em Alvalade sem qualquer necessidade. Bastaria que, na ausência de um dos jogadores que há 3 anos jogam juntos, o treinador tivesse colocado Bruno César ou mesmo Bryan Ruiz nas costas do PL e a equipa teria logo outra dinâmica porque estes jogadores cumpririam um papel defensivo que é impossível pedir a Markovic ou André (nem se fale de Alan Ruiz). Como estamos, há metros e metros para construir. A dupla Slimani-Téo ajudava a mitigar isto, claro que sim. Mas não vale a pena dizer que sem Teo deixámos de defender ou que Slimani corria mais para pressionar do que Bas Dost. O que vale a pena dizer é que com jogadores diferentes temos que nos adaptar, ao invés de exigir a Dost que seja Slimani e a Elias que seja Adrien.

Entretanto este texto parece extemporâneo porque Adrien voltou. Mas não o é. Não o é porque eu entendo que, mesmo com Adrien, a equipa seria mais segura e mais forte tendo Bruno César à frente dos dois do meio-campo (não será por acaso que foi assim que o Sporting fez 80 minutos de enorme qualidade em Madrid). Adicionalmente, tendo regressado Adrien, vamos ver se continuaremos a ouvir queixas dos laterais e dos reforços do ataque. Posso estar enganado mas se JJ fizer regressar Adrien ao 11 com Bruno César ou mesmo Bryan Ruiz entre o meio-campo e o PL, a tranquilidade vai regressar. Poderá não ser imediato, porque o Sporting atravessa (não há que escondê-lo) uma crise de confiança, mas vai acontecer mais dia menos dia. Espero que até lá as vitórias, mesmo que menos tranquilas, nos ajudem a ficar relativamente perto do topo.

26/07/2016

"Pibe" Valderrama



[A propósito de um post que acabo de comentar no "A Norte de Alvalade"]

Sempre olhei para Valderrama como um fenómeno de marketing sul-americano, que tinha uma imagem poderosa mas pouco futebol nos pés.

Mas os anos passam e hoje existe o youtube. E por vezes, quase sem querer, deparamo-nos com coisas que nos deixam a pensar "Espera lá, eu na altura não reparei nisto?".


Não, não reparei, nem podia reparar. Desde logo porque no Mundial de 90 estava a torcer pela Alemanha (é uma longa história e fica para outro dia).

Mas este lance do Valderrama é de sonho. E o relato é brutal.

11/07/2016

Por agora, só isto

Uma análise tentativamente fria virá mais tarde, acabo de vir da Alameda e ainda estou em "modo euforia".

Por agora, fica a foto de um jogador relativamente a quem eu próprio escrevi que levaria ao Euro só por não haver outro que pudesse fazer o seu papel. O futebol tem esta magia e esta imprevisibilidade.

O que nos aconteceu não acontece sempre... mas não podia estar mais feliz por nos ter acontecido desta vez (e, ainda mais, nestas circunstâncias) e se é verdade que tivemos sorte neste percurso, também é verdade que ontem fizemos por merecê-la.

Três palavras apenas, muito rápidas:

- a primeira, para Fernando Santos: um gigante na leitura de jogo nesta final. Adrien não estava a dar e a equipa melhorou muito com Moutinho; e Éder (ao contrário do que pensavam 10 milhões de portugueses quando entrou) veio fazer com que a equipa jogasse uns bons metros mais à frente (e a França tremeu quando isso aconteceu). Já o tinha elogiado muito como selecionador e já o tinha criticado muito como treinador. Na final, foi treinador como nenhum outro neste Euro.

- a segunda, para CR7. Ontem foi um verdadeiro capitão de equipa. Já o tinha sido noutras ocasiões (basta lembrar os penalties com a Polónia) mas ontem fica na nossa memória não como o enorme jogador que é, mas como o enorme capitão que não conhecíamos assim tão bem. Mereceu muito levantar aquela Taça.

- a última para Patrício: ninguém merecia tanto ganhar este Euro como ele. Nunca poderei dizer, porque seria mentira, que "sempre acreditei" que íamos à final (parece que era o único que não acreditava...) ou que "tinha uma fezada" relativamente à nossa vitória no Euro. Mas posso dizer que com a Polónia confiei que Patrício resolveria e que ontem, descrendo num golo nosso no prolongamento, estava a por as minhas fichas em Patrício para os penalties. a sua frieza e determinação, para além das qualidades como GR, deram-me tranquilidade durante todo o torneio.